Tratado sobre a cegueira.

 

João Lucas Sá*

Especial para o Estado de Minas.
Publicação: 28/01/2014.

Elizabet e João Lucas no Magic Kingdom.
Tia Bebet, simplesmente fantástica", no Magic Kingdom. No detalhe,
ela e João no parque temático O mundo de Harry Potter.
(João Lucas Sá/Divulgação).

Viajar para os Estados Unidos. Conhecer os parques da Disney. Ver o famosíssimo castelo do Magic Kingdom bem próximo, com suas tradicionais torres. A expectativa de conhecer a parte “potteriana” do parque, confesso, era demais. Há muito queria ver com meus próprios olhos tudo aquilo. E minha tia Elizabet Dias de Sá, cega, também estava em êxtase. Fomos juntos conhecer o fantástico mundo da Disney.

A proposta de viajarmos juntos já fora feita antes pela tia e prontamente aceita: fomos ao Sul do Brasil – em Gramado – e até saímos do país num cruzeiro para a Argentina e o Uruguai. Mas nunca fizemos uma viagem tão repleta de expectativas como essa. As pessoas costumam estranhar nossa dupla porque tia Bebet não enxerga nada e eu tenho apenas 15 anos. Mas, honestamente, nunca vi nada de idiossincrático nisso.

Sempre passamos muito tempo juntos; quando criança, eu ficava dias na casa dela. Pedíamos pizza. E nunca passou pela minha cabeça a ideia de a cegueira ser um tipo de invalidez, algo que a limitasse, separasse de algumas coisas. Tia Bebet é simplesmente fantástica! Com as experiências de viagens anteriores, não é surpresa a ansiedade que sobreveio com a possibilidade iminente de ir conhecer a terra do Tio Sam. Passei o dia anterior na casa dela. Não dormimos. Conversamos, ambos animados, sobre a viagem que estávamos prestes a fazer.

Já no aeroporto de Confins, as bancadas de atendimento da operadora estavam fechadas. Ao voltarmos aos guichês, a fila de atendimento estava enorme. Procurei uma de atendimento especial. Perguntei a um atendente da empresa que estava no local, e ela não soube me informar onde havia atendimento preferencial. Resultado: ficamos cerca de uma hora e meia na fila, tempo gasto desnecessariamente. Quando o guichê preferencial foi aberto, já estávamos sendo atendidos.

Daí em diante, tivemos a burocracia natural dos aeroportos, filas e filas e tempo de espera. Até que, finalmente, conseguimos embarcar. Sentamo-nos num dos primeiros assentos – eles são reservados preferencialmente para deficientes, grávidas e idosos, como ocorre nos assentos de ônibus – e tivemos uma viagem tranquila. Se bem que o aparelho para assistir aos filmes no assento da minha tia não funcionava direito, e esse foi um problema. Mas nada de muito alarme.

Uma viagem longa, de muita demora, mas findou. E, finalmente, desembarcamos nos Estados Unidos. Não recordo o nome do aeroporto, mas lembro-me da magnitude. Era enorme, e de tempos em tempos eu lia uma placa com algum símbolo de acessibilidade. Banheiros acessíveis havia em todos os lugares. E a locomoção era facilitada graças a rampas e carrinhos. Tudo muito diferente... Pra melhor. Os guias foram sempre muito legais; nos trataram muito bem. Saímos do aeroporto com muita rapidez, e de lá fomos direto para o hotel, que ficava dentro do complexo da Disney.

O lugar é enorme. Somente para conhecer o hotel precisaríamos de vários dias. As construções eram temáticas, os quartos também. Salões decorados com personagens da música famosos, assentos retrô com pinta de refeitório, piso acarpetado com temas musicais. Um detalhe importante e interessante: os ATMs, que são os caixas eletrônicos, são acessíveis, com recurso de audiodescrição, além dos números do teclado em braille. Havia um no salão, com entrada para fones de ouvido e os seguintes dizeres (em inglês e braille): “This ATM offers audio assistance for the visually impaired” (Este caixa eletrônico oferece áudio para os deficientes visuais). A tia inclusive o utilizou uma vez, e não houve problemas com a máquina.

Elizabet no caixa eletrônico.
Recurso de audiodescrição e números do teclado embraillei.
facilitam a vida da turista mineira no caixa eletrônico.
(João Lucas Sá/Divulgação).

No dia seguinte, ao sairmos do hotel e nos direcionar ao primeiro parque, duas coisas impressionaram: a quantidade de pessoas e o tamanho dos lugares. Cada brinquedo e cada atração tem o tamanho de uma casa muito grande, no mínimo. Os desfiles percorrem ruas inteiras dentro do parque e as vias são apinhadas de veículos e pessoas. Cada parque é uma cidade, literalmente. Uma cidade cheia de crianças.

No primeiro parque (Magic Kingdom), notei rampas nas vias e placas de acessibilidade nas entradas dos locais, o que facilita muito a locomoção no mar de pessoas que o local de fato é. Locomoção que foi extremamente exigida de todos nós para conhecer boa parte do local. Como disse, é imenso, e o caminho todo é percorrido a pé. Andamos várias horas, passando o dia inteiro numa caminhada contínua. Uma boa dica para quem for é levar tênis de caminhada, boné ou chapéu, óculos de sol e beber muita, muita água. No mais, foi tudo tranquilo e correu bem.

Fomos a todos os brinquedos desse parque que faziam parte do cronograma e nos divertimos bastante. Aliás, há acesso preferencial a todos os brinquedos e o serviço funciona perfeitamente bem. Chegamos ao hotel cansados, e fui dormir após um banho quente. No outro dia, fomos ao Epcot. Nesse parque, tivemos algumas simulações, inclusive uma sobre corridas de carros e outra que tem por tema uma viagem a Marte. Para um cego, poderia parecer estranho, mas as sensações, segunda a tia, foram incríveis. Começamos a maratona cedo, e paramos para almoçar (um almoço que se resumiu a sanduíches e batatas fritas com refrigerante).

Bênçãos de Deus?

Já um episódio que nos surpreendeu bastante: estávamos no quarto e nos preparávamos para sair – iríamos ao mercado –, quando resolvemos conhecer a loja de suvenires do hotel. Ficava bem próximo à saída, onde pegaríamos um táxi mais tarde, junto a duas companhias memoráveis que encontramos durante a viagem (uma colega de trabalho da tia Bebet, Mara, e sua filha, Beatriz).

Ao chegar na loja, fomos logo ver os produtos que eram deixados em exposição, para a tia conhecer os objetos à venda. Pensando em trazer lembrancinhas para cá, ela já havia comprado bichinhos de pelúcia no Sea World e no Magic Kingdom; mas simplesmente se apaixonou por uma pequena bolsa com tema de Mickey Mouse para portar pequenos objetos e resolveu levar junto com um globo para decoração.

No momento em que levamos os objetos até o caixa, uma atendente, muito impressionada com a tia, nos abordou, perguntando se éramos parentes, se ela era minha mãe. Respondi explicando o parentesco. Mas após isso sua fala marcou a impressão que temos em quase todos os lugares: “God will give you lots of blessings for taking care of her” (Deus te dará muitas bênçãos por tomar conta dela). Fervi de raiva, mas compreendi que nem todas as pessoas ainda estão preparadas para lidar com o diferente do convencional.

O que é natural para mim – afinal, tenho mais quatro tios cegos além da tia Bebet – é estranho para a maioria. E pude perceber isso durante toda a nossa estada na Disney. Apesar dos inúmeros informes e placas de acessibilidade e guias para orientação de deficientes, a maioria das pessoas está despreparada. Após pagar as compras, quis sair de lá o mais rápido possível.

Já a tia teve uma atitude mais madura, demonstrando sua experiência. Concordou, claro, que foi um enorme equívoco da moça achar que eu a estar acompanhando significaria “tomar conta dela”, mas disse também, muito sabiamente, que é muito comum esse tipo de pensamento existir. Que ela já viu muito disso. E que era preciso relevar. Depois rimos do episódio. Pudera. A concepção da moça invertera as posições, colocando a tia numa condição de acompanhada, quando na verdade o menor acompanhado era eu.

Mais tarde, fomos ao mercado comprar várias coisas, entre elas algumas roupas e muito chocolate. Experiência interessante dar conta da lista de compras em outro idioma. Ao final do dia seguinte, a prova final de que a Disney é realmente um lugar mágico: o tempo passou rápido demais e já estava na hora de arrumar as malas. Aprontamo-nos para a saída, que seria logo após o café da manhã, e dormimos. O check-out foi realizado com certa tranquilidade, os guias nos levaram ao ônibus e de lá fomos direto ao aeroporto.

Ao chegar, nos direcionamos à alfândega e ao escrutínio costumeiro dos scanners de bolsa de mão. Depois de despachadas as malas, esperamos. Desta vez foi relativamente fácil e rápido o atendimento, os caixas preferenciais estavam abertos desde que chegamos. Embarcamos nos lugares preferenciais costumeiros e enfrentamos as horas de voo até voltar à terrinha. Um voo relativamente tranquilo; vimos filmes e dormimos. Desembarcamos, recuperamos nossas malas, demos o último até logo à Mara e à Bia, e nos encontramos com minha mãe, que levaria a tia pra casa. (JLS)

*João Lucas Sá é estudante do Cefet e autor do livro Versos de um menino velho, lançado pela Chromos Editora.

 

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