Texto, teto e tato.

 

Artigo - Batista de Lima.

 

Nada existe fora de um texto. Se é um escritor, dialogando com sua solidão, ele pratica travessuras com a linguagem. Brinca de esconde-esconde com os signos. Engorda algumas palavras e emagrece outras. Se é um crítico, vasculha as dobras da escritura, clareando reentrâncias verbais.

No princípio era o verbo, que só sobrevive nos jardins do texto. Tudo é, pois, contexto. A mais isolada ilha não bóia. Ela funda um continente que lhe sustenta. Assim como a ilha é vigia do continente, o texto é a festa de seres ausentes que mandaram seus verbos representantes. Cada palavra representa um ser que não pôde comparecer à festa dos signos. Como não podemos colocar o mundo original ao nosso alcance, transformamos esse mundo em palavras e o trazemos para o nosso abraço. Até a pessoa querida que não podemos reter ao nosso lado, nós lhe damos um nome e ela se instala nos nossos braços. "Não posso com meus ossos/ perdi meus braços/ no último dos nossos abraços". Falar assim é abraçar sem braço aquele ausente. Só em literatura isso é possível.

Quando colocamos as palavras para se darem as mãos elas dão vida a uma mensagem. Quanto mais se socializam mais vida adquirem. A relação entre as palavras é muito parecida com a relação entre as pessoas. Palavras e pessoas se imitam.

Quando pessoas se dão as mãos outras vidas se fundam.

A palavra escrita é como a pessoa registrada. Ambas possuem uma identidade, um memorial. Se a pessoa possui seu currículo, a palavra possui sua etimologia. A etimologia é o currículo da palavra. A palavra é o tato da coisa. Nosso contato com o ser começa com a palavra. É possível que nela já pulse o sol que se esconde em cada coisa. É possível que na palavra já se instale essa temperatura que se aninha no interior de cada coisa. É bem verdade que certas coisas se desnudam mais através das palavras que lhes representam. É essa afinidade palavra/coisa que a gente precisa cultivar. Fazer com que o ser nos chegue sem sair de onde está. É possível molhar-se apenas ao se pronunciar a palavra "chuva". Porque essa é uma palavra molhada que já traz o chiado da chuva.

Palavras como "manga", "mamão", "mamãe" e "mamar" são mensageiras da "mama". São palavras felizes. Cabe ao escritor promover a felicidade das palavras. Cabe também a qualquer pessoa essa função, até ao mais simples falante. É através da fala que podemos avaliar se o falante é um animador de palavras. A linguagem oral tem o privilégio de ser os braços do coração.

O falante expõe as emoções não só pelos sons vocais que emitem, mas pelos gestos, pela altura da voz, pelo crispar do cenho, pela presença ou não da ternura do olhar. Na linguagem escrita, esses fenômenos não aparecem.
É preciso, no entanto, termos cuidado com a altura da voz. Quem grita, distancia-se do afeto. As pessoas, que mais se amam, mais baixo dialogam. Há casos em que tão grande é o amor, que as palavras se tornam dispensáveis. Gritar com alguém é pressupor que existe uma grande distância entre falante e ouvinte. Se o ouvinte está próximo e nós gritamos, estamos colocando-o distante o mais possível do nosso coração. Fala alto quem ama baixo, quem ama pouco.

A comunicação é um teto onde duas pessoas se tornam texto. E os componentes de um texto têm ligações muito profundas. O teto é uma construção que de tanto acasalar as pessoas recebeu o nome de casa. Assim como a casa antiga possuía o cogitarium, o venustério, o altar dos penates, os jardins, o sótão e o porão, o texto também pode nos oferecer esses compartimentos. A claridade do sótão com sua objetividade e o sombrio do porão com sua subjetividade nos indicam que o teto como o texto são infindáveis como poço de significações e como superfície para rastreamentos. A parte mais sombria de um texto é um ninho de metáforas.

Metáfora é bichinho tinhoso que se reproduz na sombra. Tanto os compartimentos sombrios da casa como do texto estão repletos de metáforas.

Quanto mais sombrio o teto, mais o tato se faz presente. Tateia-se no escuro e as surpresas se multiplicam. Imagina-se no sombrio. Geralmente guarda-se a memória, no porão. É lá onde guardamos tudo aquilo que nos foi útil um dia. Tudo o que marcou os principais momentos da vida está guardado no porão. Ir ao porão é ingressar no mundo da memória. Os objetos que ali estão, trazem impressa a história da família. O porão é uma sucessão de textos acumulados. Quanto mais antiga é a casa, mais histórias acumulam-se nas suas fundações. Ela guarda sugestões, sinestesias, emoções e lembranças.

O leitor de tato transforma o texto em teto. Ele rastreia e prospecta, nada e mergulha. Ele se agasalha no texto. Por isso que, se do texto o leitor se desprender, ele passa a transportar em si as marcas do seu contato. Portanto, o leitor não se livra mais do texto, assim como o morador não se livra do seu teto. As marcas ficam e são transportadas. Por isso que sempre retornamos para uma casa que sempre transportamos. Da mesma forma, sempre retornamos para um texto que sempre transportamos. Texto e teto, pois, se imbricam em um só ser.

Estamos sempre a conduzir aquilo que nos conduz. Feito um molusco, cada um conduz uma concha em construção. A concha só se constrói enquanto o molusco tem vida. Assim, o teto só tem vida enquanto a vida do habitante tateia suas dependências. Da mesma forma o texto só tem vida quando o leitor tateia seus compartimentos.

 

Caderno 3 - Diário do Nordeste Fortaleza/CE - 18 de dezembro de 2007.

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