O SABER E O NÃO SABER SOBRE A CEGUEIRA:
UMA VIAGEM COM AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

 

Elizabet Dias de Sá*

 

Não tive o privilégio de viajar ao lado de Affonso Romano de Sant'Anna no avião, mas, ouso viajar com ele nas linhas e entrelinhas de seus escritos cuja erudição e estética são impecáveis. Em sua coluna semanal do Jornal "O Globo", ele nos brindou com meia dúzia de crônicas sobre a cegueira e o saber. Instigada pelas contingências e pelo impacto da falta da visão, li as crônicas com os olhos de quem não vê e convive intimamente com a dimensão orgânica, prosaica e quotidiana da cegueira real e concreta.

Em suas incursões através da mitologia e da literatura, nestes escritos, Affonso Romano de Sant'Anna recupera lendas, mitos e contos de fada nos quais o ver e o não-ver estão articulados ou desarticulados em uma complexa rede de significados , de imagens reais e virtuais, de metáforas e outros meandros da linguagem e do sentido de existência. Ressalta as sutilezas do discurso, o poder da narrativa como fonte de regeneração e de reconhecimento, as artimanhas dos sujeitos diante da obviedade e do imponderável. Enfim, descreve um universo mágico, de sonhos, fantasias, ilusões e poesia. Entre uma crônica e outra, a realidade sorrateira arrebatou de nosso convívio a eminente figura do professor Edsom Ribeiro Lemos que era cego. O professor Edsom é lembrado e relembrado pelo cronista que narra como eles se conheceram durante uma viagem para o Chile. No avião, sentado ao seu lado, Affonso Romano ficou observando como ele se comportava. Curioso e um pouco ressabiado, quis saber sobre sua cegueira sem causar constrangimentos. Decidido a interagir com o companheiro de viagem, resolveu ser franco e direto com a intenção de deixá-lo à vontade e percebeu que ele "tão à vontade já estava"...

Aqui, deparamos com o não-saber sobre a cegueira, com a ignorância frente a uma situação nova e desconhecida, que sugere atenção, interação, atitudes, provoca reações passivas ou ativas. não raro, as pessoas agem ou deixam de agir por não saber o que fazer ou como proceder nestas circunstâncias. Alguns permanecem impassíveis sem fazer nada, outros apenas observam e muitos, talvez, a maioria, interage com o sujeito ou com a situação com curiosidade, solicitude, reserva, indiscrição, de forma refinada ou grotesca...

Armadilha dos estereótipos compartilhados e difundidos pelo senso comum está presente no imaginário do narrador. É o que transparece em suas observações e comentários a partir das cenas e gestos coloquiais daquele episódio. Assim, ao servir o café, aeromoça colocou a xícara ao contrário na mão do cego que sorriu e explicou que ela não estava preparada para lidar com a situação. O sorriso foi interpretado como "aquele sorriso de bondade, que só os cegos têm..."

Será que todos os cegos têm mesmo um sorriso de bondade? A bondade pode ter sido uma das virtudes de nosso venerável viajante e não necessariamente das pessoas cegas que podem ser boas e generosas, nem tão generosas, nem tão boas... A falta da visão assim como a vivência de outras faltas, perdas e danos podem ocasionar uma depuração, purificação, sublimação, mas, não conferem bondade ou qualquer outra virtude e atributos, indiscriminadamente, a quem delas padecer. Neste caso, o narrador exprime uma concepção condescendente, generalizante e mistificadora em relação às pessoas cegas. Ele se mostra surpreso e admirado diante do saber do outro que é "cego, mas acompanhava as coisas"...

A conversa fluiu. O professor perguntou sobre os Andes e ele indagou sobre os sonhos de um cego...

Conversaram sobre enxergar cores e brincaram com a "cegueira" de cada um, numa troca de idéias e conhecimentos sobre o tema até que o vizinho de vôo adormeceu e ele continuou acordado. Ao passar pelos Andes, fixou seu olhar sobre as montanhas de neve sem saber como poderia descrevê-las para um cego.

A narrativa deste encontro casual e fortuito é permeada de indagações, cuidados e incertezas que revelam o não saber flagrante e ingênuo em relação às pessoas cegas, em contraposição ao saber complexo, discursivo e rebuscado que trata a cegueira como metáfora.

 

Belo Horizonte, 17 de janeiro de 2005.

 

(*)Elizabet Dias de Sá.
www.bancodeescola.com.
elizabet.dias@terra.com.br.
elizabet@pbh.gov.br
Coordenadora do Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo Horizonte - CAP/BH.
Consultora Educacional.

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