Jornal O GLOBO, 27 de novembro de 2004.

Afonso Romano de Sant'Anna.

A CEGUEIRA E O SABER (2).

Do "Ensaio sobre a cegueira", romance de José Saramago, o leitor tem memória recente. Ele narra que num dia qualquer um cidadão diante do sinal de trânsito fica desesperadamente cego. E começa, então, uma epidemia de cegueira narrada longamente. Ao final do livro e do mergulho na escuridão os personagens começam a emergir de novo para a visão recuperada. É uma parábola de fundo ético, sobre os nossos tempos, com laivos de esperança, como o próprio romancista assinalou em algumas entrevistas. Na última página, usando aquela estranha pontuação o texto indaga: "Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem".
Na mitologia e na literatura há vários textos sobre o intrigante tópico da cegueira e do (não) saber. Ainda agora recebo "Manual de instruções para cegos"(7Letras/Funalfa), de Marcus Vinícius, um bem-elaborado livro de poemas que atravessa essa questão. E a contadora de estórias Christina Zembra me lembra o recente "Vozes do deserto" (Record), de Nélida Piñon, em que a escrava Jasmine vai ao mercado de Bagdá ouvir histórias do derviche cego, que, à maneira daquele herói mongol Tavaar, ao ficar cego pediu a Alá que lhe desse algum dom que o fizesse sobreviver.
No entanto, um dos mais fortes e intrigantes textos sobre o tema que estamos abordando é o conto de H.G. Wells, escrito em 1899, "Em terra de cego", que pode ser encontrado em "Contos fantásticos do século XIX escolhidos por Italo Calvino" (Cia das Letras). Curiosamente, lembro-me de um jantar aqui no Rio em que, indagado por Marina Colasanti, Saramago revelou que não conhecia o texto de Wells. Todavia, um estudo comparativo entre ambos seria enriquecedor.
H.G. Wells (1866-1946) conta que, nos Andes, na região do Peru, havia uma Terra de Cegos. Como em outras narrativas, a exemplo do mito mongol e o "Édipo" de Sófocles, aos quais já me referi, a cegueira sobreveio como uma peste, como punição para os "pecados da comunidade". Surgindo aos poucos, a cegueira foi se manifestando nos habitantes daquela região até que, ao cabo de 14 gerações, estavam todos sem visão e não tinham mais sequer memória que um dia algum antepassado pudesse ter visto alguma coisa. Porém, adestrados para sobreviverem, acabaram por se movimentar normalmente nas montanhas, cultivavam seus alimentos e se reproduziam. Como em muitos mitos, no entanto, um dia surge um forasteiro. Ah! O forasteiro, esse que vem de fora, vendo o que a comunidade já não mais vê? Pois esse forasteiro literalmente despencou ali na Terra de Cegos ao cair de uns trezentos metros numa encosta gelada. Recuperando-se do acidente, estava pasmo, admirando a espetacular natureza e o milagre de sua sobrevivência, quando percebeu estranhas pessoas que, aos poucos, descobriu, eram cegas. Vem-lhe à mente a expressão: "Em terra de cego quem tem um olho é rei". E o que se desenrola a seguir é, em parte, para provar (ou não) os limites dessa assertiva.
O forasteiro é levado ao ancião da tribo. Estabelece-se o confronto cultural-biológico. Eles não entendiam o que ele queria dizer quando usava a estranha palavra "ver". Decididamente possuía uma anomalia - a visão - que tinha que ser curada. Estranhavam que ao guiá-lo pelos caminhos ele afirmasse que não se preocupassem porque podia ver com os próprios olhos. "- Não existe a palavra 'ver' - disse o cego. - Pare com essa loucura e siga o som de meus pés". Mas o forasteiro retruca ao cego: "Nunca lhe disseram que em terra de cego quem tem um olho é rei?". E o outro responde: "- O que é cego?"
Faltava-lhes a visão e a palavra correspondente. Mas, espantosamente, os cegos tinham lá sua sabedoria, sua filosofia, sua religião. E o fato é que o estranho, o "outsider", tentou se adaptar, esforçou-se por "ver" junto com os cegos, alongando os sentidos para que um compensasse e ampliasse o outro. Diante das dificuldades de adaptação à cegueira, dizia "Há coisas em mim que vocês não entendem" e passava a descrever a beleza do mundo que conhecia, porém os cegos negavam aquilo tudo. Há até uma cena de ameaça de luta usando pás entre aquele que vê e os que não sabem que não vêem. A partir daí, o estrangeiro "começou a perceber que não se pode nem lutar com ânimo contra criaturas que estão numa situação mental diferente da sua".
Há uma primeira tentativa de fuga, de abandono daquela situação. Mas o herói volta para dar a si e aos cegos nova chance. Decide tornar-se um deles. Aceitar a cegueira para sobreviver. Começa a namorar uma bela índia. Mas os nativos se preocupam que ele vá, com sua visão, corromper a raça. Dizem-lhe que tem que ser operado. E o ancião lhe afiança que a cirurgia é "bem fácil" e pode extrair-lhe "esses corpos irritantes" - os olhos.
Na véspera de abrir mão de sua visão, foi ao local de sacrifício para despedir-se da pradaria, dos narcisos brancos, "mas enquanto andava ergueu os olhos e viu a manhã, manhã como um anjo em armadura dourada, descendo pelos picos? Pareceu-lhe que, diante desse esplendor, ele, e esse mundo cego no vale, e seu amor, e tudo, não eram mais do que um poço de pecado (?) Viu sua beleza infinita, e sua imaginação cresceu a partir do gelo e da neve para as coisas lá longe, às quais iria renunciar para sempre". E depois de descrever a riqueza do mundo fora da Terra dos Cegos, o texto descreve o estado de graça do personagem: "ficou bastante quieto por ali , sorrindo como se estivesse satisfeito simplesmente por ter fugido do vale dos cegos, no qual tinha pensado ser rei. O brilho do pôr-do-sol passou, a noite chegou, e ele ainda estava quieto, deitado, em paz e contente sob as estrelas frias e claras".

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