PESSOAL E INTRANSFERÍVEL.

 

O livro "Pessoal e Intransferível", de Sylvia Leal e Regina Protasio, repensa a maturidade da mulher como mais uma fase de sua vida, e não uma "penúltima".

No passado, entre outras heranças, cabia a mulher apenas repetir o modelo de suas mães e avós, para quem a menopausa representava a cadeira de balanço, a renúncia ao sexo, a aposentadoria, a aceitação de implacáveis marcas do envelhecimento.

A esta geração de mulheres, que hoje chega aos 50, 60 anos, coube acostumar os ouvidos à batida da bossa nova e ao ritmo frenético do rock’n roll, testar ousadias como pós-guerra, pílula, feminismo, silicone, drogas, o método liberdade sem medo para educar os filhos. Agora, para elas, há um novo desafio: reinventar a maturidade. Não nos moldes impostos pela mídia que reduzem as mulheres a simples consumidoras de dietas, malhação e bisturis, obcecadas unicamente em perseguir a juventude que ficou para trás. E sim pensar a maturidade como mais uma fase na vida da mulher - e não como a "penúltima".

As autoras Sylvia Leal e Regina Protasio, reuniram 35 depoimentos de grandes mulheres sobre o processo de envelhecimento. As experiências pessoais e intransferíveis de cada uma delas fazem pensar sobre a construção permanente do ser humano, não importa em que idade.

Maria Adelaide Amaral, Vera Holtz, Ângela Vasconcelos, Denise Frossard, Irene Ravache, Miriam Mamber, Wanda Sá, Marcia Neder, Teresa Camarão, Regina Navarro Lins, Fadynha, Lenny Niemeyer, Zezé Motta, Constança Teixeira de Freitas, Vanda Klabin, Heloisa Seixas, Selma Hinds, Rosa Magalhães, Mayana Zatz, Zezé Polessa, Elba Ramalho, Silvia Poppovic, Vanete Almeida, Maira Carvalho, Leilah Assumpção, Jane Corona, Clarice Herzog, Vera Fajardo, Lucinha Lins, Elizabet Dias de Sá, Monica Horta, Tizuka Yamasaki, Elizabeth Goldfarb, Rosiska Darcy de Oliveira e Rita Kaufman - mulheres de destaque em suas áreas de atuação - são as personagens deste livro audacioso. Personagens que, com toda a coragem, contaram suas histórias e refletiram sobre suas vitórias e derrotas.

 

Entrevista com as Autoras.

 

Como surgiu a idéia de escrever sobre a maturidade feminina?

Regina - Primeiro pela experiência pessoal mesmo, por estar vivendo esse processo. E também a partir de conversas com amigas, das dúvidas comuns, dos medos, da desinformação. Falta informação e essa informação pode garantir mais tempo e qualidade de vida.

A menopausa faz soar uma espécie de alerta amarelo para o envelhecimento num mundo que, cada vez mais, impõe a eterna juventude. São novos valores estéticos, éticos, uma nova ordem, que vem gerando muita angústia.

 

Antigamente, se passava de balzaquiana para idosa. Agora, tem uma geração no meio: a das mulheres maduras. Quem são elas? Qual o seu papel? Quais os seus sonhos, os seus desafios? É preciso falar sobre isso. Muito.

Sylvia - Já não suportava ler, quase diariamente, frases do tipo: "aos 55, com um corpinho de 30". Estava saturada do anúncio de fórmulas milagrosas, do botox, das lipos, dos cremes caríssimos capazes de eliminar nossas rugas em três semanas, dos programas de malhação, enfim, de todas as promessas da mídia para nos fazer recuperar os contornos de uma juventude distante. Nada contra quem se cuida, mantém a mesma energia, a barriguinha enxuta, o pescoço sem pregas, os cabelos fartos e brilhantes de ontem. Quem não desejaria ser assim aos 50, 60 anos?

Acontece que assistimos a um exagero. O rejuvenescimento acabou virando uma camisa de força, uma perigosa obsessão para muitas mulheres, impondo sacrifícios e frustrações desnecessárias.

Fiquei me questionando durante um bom tempo o que pensariam as mulheres da minha geração. Como, em meio a uma vida plena de realizações, elas lidam com a menopausa, a flacidez da pele, o corpo que se arredonda, o desejo que diminui. De que modo encaram as limitações e os medos inevitáveis. O que pensam desta maturidade espremida entre o modelo de nossas mães e avós, que já não cabe mais, e os novos padrões impostos pela mídia que não nos permitem envelhecer felizes, agradecidas e plenas. Não tentando parecer o que já não somos, mas em paz com a beleza da idade que temos. Gravador na mão, parti para ouvi-las. Os leitores vão se encantar, como eu, pelas corajosas revelações das 35 mulheres que constituem a essência deste livro.

 

Qual foi o critério para a escolha das entrevistadas?

Regina - Os diferentes perfis, profissões, trajetórias de vida, para que cada leitora pudesse se ver no livro, se identificar com um ou mais depoimentos. Por isso, também, procuramos mulheres com uma imagem pública, uma imagem positiva.

Sylvia - Há atrizes, cantoras, empresárias, escritoras e jornalistas. E também publicitária, socióloga, sexóloga, estilista de moda, cineasta, cientista, líder sindical e mais. Ou seja, procuramos diversificar bastante a área de nossas entrevistadas. Um ponto, porém, é comum a todas: estão ativas e têm o reconhecimento público pela importância de sua atuação.

 

Por conta dessa diversidade, vocês tinham perguntas também diferenciadas ou eram as mesmas para todas?

Regina - As duas coisas: algumas comuns a todas, outras mais específicas. Na verdade, houve entrevistas em que eu só perguntei o nome completo e a idade. Depois, virou uma conversa. Em outras, foi preciso puxar um pouco mais. Sylvia - Posso garantir que nenhum encontro foi igual ao outro, apesar da pauta de perguntas que tínhamos na cabeça para todas. Procuramos descrever para o leitor, cada um destes climas criados entre entrevistada e repórter.

 

Todas as mulheres que vocês procuraram aceitaram participar do livro?

Regina e Sylvia - Tivemos, sim, algumas recusas, mas é compreensível a dificuldade de falar sobre assuntos tão íntimos, especialmente quando se tem uma imagem pública. Além disto, muitas das mulheres convidadas não conseguiram encontrar um tempo em suas apertadíssimas agendas. Por isso mesmo, somos muito gratas às que se dispuseram a conversar, confiaram em nós e se tornaram parceiras no projeto.

 

Por que o título "Pessoal e Intransferível"?

Sylvia - É preciso deixar claro que a nossa proposta passa longe de apresentar grandes conclusões sobre a maturidade feminina. Como poderia? O que buscamos foi apenas recolher fragmentos de vida de algumas mulheres nesta fase. A experiência de cada uma é, sem dúvida, pessoal e intransferível. Mas ao ser compartilhada, ela escancara as alegrias e perdas que todas vivemos, renova esperanças e faz como que a gente se sinta parte de uma geração desbravadora que viu nascer o rock´n roll e a pílula e que agora precisa descobrir como é que faz para envelhecer de maneira digna, produtiva e, sobretudo, muito, mas muito prazerosa mesmo. Como foi o processo de escrever em dupla? Como vocês dividiram as entrevistas?

Regina - O livro foi escrito em dupla, mas de uma maneira individual, tanto que cada depoimento é assinado. Você saberá, no início, quem escreveu. Simplesmente, fizemos a lista dos nomes e nos dividimos em função não somente de uma escolha própria, mas até da disponibilidade de cada uma nas datas marcadas. A Sylvia, por exemplo, como tem sempre compromissos em São Paulo, realizou todas as entrevistas de lá. Sylvia - No início, achei que seria um desafio escrever em dupla, o que, ao contrário, acabou se tornando um ganho enorme. Havia espaço para uma troca permanente de impressões e idéias, para a correção de rumos. Foi ótimo.

 

O livro de vocês se dirige ao público feminino ou a expectativa é que os homens também leiam?

Regina e Sylvia - O universo é feminino, mas pensamos que os homens também deveriam ler. Para conhecer melhor as mulheres, entender as transformações físicas e emocionais, os humores que a menopausa traz e que tanto interferem na relação do casal. A andropausa é igualmente transformadora, mas tem um processo mais lento. A chegada da menopausa, no entanto é brusca.

 

Vocês têm algum novo projeto, um outro livro em dupla?

Regina - Temos sim: um livro sobre maturidade masculina. Queremos ouvir os homens e torcemos para que eles falem tão abertamente quanto as mulheres. Além disso, criamos o site "Maturidade online", com textos nossos e de outros escritores e jornalistas, sobre saúde, comportamento, beleza, alimentação, relacionamentos, moda, para um público específico. E também escrevemos um monólogo para teatro, que está em fase de finalização.

Sylvia - O "Maturidade online" [http://www.maturidadeonline.com/] vem por aí, abrindo um espaço permanente para a informação e discussão de assuntos que fazem parte do nosso universo. Queremos que seja glamuroso e moderno. Feito para mulheres que podem até estar aposentadas. Mas certamente não para a vida.

 

"Mulheres maduras relatando suas experiências. Até aqui, nada de novo. Mas que mulheres, e que relatos! Para quem reflete e escreve sobre o valor da vida, a passagem do tempo como crescimento e não deterioração, o livro é sedutor. Quando se trata de mulheres desse gabarito, torna-se um desafio. Este livro foi escrito a sangue e fogo, e o invisível material da coragem. Que, exercida para compensar o nosso medo, nos faz tão ardentemente humanas." - trecho do prefácio do livro, por Lya Luft.

 

"Pessoal e Intransferível" Sylvia Leal e Regina Protasio Editora Record 240 páginas.

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