"EL TIFLOENCUENTRO"*,
UMA FOTOGRAFIA MENTAL DE BUENOS AIRES.

 

Luciana Angélica de Sá Machado

 

Voltei de Buenos Aires em “estado de graça”. Encantada com a Cidade, com as pessoas, com a comida e até com o clima.

Essa viagem foi um convite de minha tia Elizabet Dias. Como arquiteta, tenho um grande e particular interesse em desenvolver um trabalho em minha área profissional para pessoas cegas e com baixa visão.

Sabendo disso, minha tia incentivou-me a participar do "Tifluencuentro". Pois nesta viagem, eu teria oportunidade de observar como os cegos, fora da minha família, se comportam em situações diversas.

Saímos de Belo Horizonte com uma temperatura de 12° e encontramos Buenos Aires com uma temperatura de 23°! Detalhe: nossas roupas eram para suportar um frio abaixo de 10°. Felizmente, dois dias depois a temperatura caiu para 8° e se manteve por toda a viagem. Mas sentimos um frio maior, pois a umidade relativa do ar é bem elevada.

Na chegada, um pequeno contratempo: extravio da mala da Tia. “Que lástima!” Recuperamos a mala seis dias depois! Pensamos até que a mala tinha ido dar uma volta ao mundo. Mas esperávamos seu retorno antes dos 80 dias.

Pela alegria do grupo, a mala virou assunto de piada: “la maleta extraviada”. Além disso, minha tia ganhou um guarda roupa novo e pôde observar o carinho e solidariedade de todos do grupo.

Por exemplo, Teresita, que nos brindou com duas blusas de cachemir.

Pablo Lecuona e Hector nos aguardavam no Aeroporto. Pablo Lecuona um dos organizadores do encontro e Hector um voluntário que mais tarde veio a ser nosso fiel escudeiro.

No trajeto para o hotel percebi a fluidez do tráfego e algumas características urbanas iguais a do Brasil. A primeira sensação que tive foi de melancolia. Mas essa impressão foi porque estava passando mal de estômago, completamente enjoada. Quem cuidou de mim foi minha tia e Hector. Os papéis se inverteram. Tia Bete pegou sua bengala e foi atrás de ajuda para mim. Depois, me contou que essa situação a fez lembrar de uma crônica sobre os pacientes e seus acompanhantes. Muitas vezes, os acompanhantes passam mais mal do que os pacientes, e estes, pobres enfermos, ainda têm que tomar conta deles. Prontamente medicada, voltei ao juízo perfeito.

Observei a província de vários ângulos. Buenos Aires é linda. Plana, com quadras muito bem definidas, edifícios sem afastamentos laterais e frontais. Há uma enorme quantidade de edifícios históricos preservados. É encantador. Um povo que preserva seus edifícios merece todo meu respeito. Percebi nos Argentinos um nacionalismo aguçado e também percebi que são muito politizados. Talvez isso justifique o nacionalismo. Interessante também o orgulho da “pátria mãe” e a ausência de palavras em inglês na fala.

Por ser arquiteta urbanista, chamou minha atenção os estacionamentos subterrâneos. As ruas não ficam entulhadas de carros nos acostamentos. Isso deixa a Cidade mais “limpa” e agradável. Os motoristas não usam cinto de segurança. Achei estranho no primeiro dia, mas depois fui perceber que eles não são velozes (nem ferozes) no trânsito. E o número de automóveis nas ruas é reduzido em comparação ao Brasil. Provavelmente seja pela eficiência do metrô subterrâneo e pelos trens que ligam uma província a outra.

A vegetação arbórea dá um “ar” europeu a Cidade. As folhas caem e ficam os galhos compridos e finos. A paisagem fica “romântica”.Parece uma pintura... Buenos Aires convida ao romance. Os cafés são charmosos e a vida cultural é intensa. Percebi que em Buenos Aires há mais livrarias e cafés do que grandes centros de compras (shopping).

Come-se muito bem, inclusive com os olhos e por um preço bem acessível. Os pães são servidos com fartura em todos os restaurantes. E são saborosos. O vinho é uma constante. Para meu deleite total.

Os lugares recebem muito bem os turistas. Mas, é claro, existem aquelas pessoas mais bem humoradas e as nem tão bem humoradas.

Bom, logo que cheguei ao hotel me encantei com o Evento. Estava tudo muito bem organizado e a independência dos cegos participantes me assombrou. Mesmo nascida e criada em uma família com quatro tios cegos e minha mãe com baixa visão. Estou acostumada com a desenvoltura deles para realizar tarefas do cotidiano e por se destacarem em suas profissões.

Não me espanta ver um cego tendo uma vida normal como de qualquer pessoa “vidente”. Mas, neste encontro, fiquei encantada com os participantes. Independentes, destemidos, alegres e espertos, muito espertos.E o contato com cães guias também foi bárbaro para mim.

O simpático casal Pablo e Mara me encheu de orgulho e esperança. A filhinha deles é uma fofura. Fiquei deslumbrada com a desenvoltura de Malena e também de Daniela. As menina são uns encantos. Quando estão na presença de cegos descrevem com detalhes o que se passa. Daniela gostou de me ensinar espanhol e contou isso a mãe. Encontrei com Daniela poucas vezes. Mas foram encontros bem proveitosos. Realmente ampliei meu vocabulário com ela.

Não levei câmera fotográfica e não comprei nenhuma descartável porque tinha a intenção de comprar uma no aeroporto de São Paulo. Mas foi tudo muito corrido e não deu tempo.Minha segunda opção então era comprar uma qualquer na Argentina e na volta comprar uma melhor em SP. Mas, no hotel, tomei a consciência de que estava em um grupo de novos amigos cegos. E que eles curtiam de corpo e alma tudo, com tamanho entusiasmo e intensidade, sem enxergarem absolutamente nada, que pensei: _ porque preciso de uma câmera? Posso fotografar com os olhos o que eles fotografam com a mente. Não preciso de imagens porque as emoções que estou passando aqui não podem ser contadas e passadas através de fotos. Consigo imagens de outras formas, principalmente por causa da minha profissão.

Os lugares que estivemos foram muito bem escolhidos. Muito interessantes porque foram passeios organizados por argentinos moradores de Buenos Aires. E mais ainda: Por pessoas que apenas queriam uma confraternização entre amigos. Resultado: foi uma excelente viagem com um custo bem acessível.

O Hotel estava todo preparado para receber os participantes. Braille no elevador, pequenos lanches já preparados no café da manhã para atender com agilidade o grande número de cegos. Achei bem estratégica a localização do Hotel. Perto do famoso Café Tortone e da rua Florida. Acerca, muitos cafés e restaurantes e na esquina um supermercado.

Ai que saudade!!!

Alguns lugares que visitamos:

Feira de Mataderos - é uma feira de tradições populares onde se pode assistir ao ar livre espetáculos de danças tradicionais.

Centro Histórico original da Cidade “la Plaza de Mayo” - Lá está a Catedral Metropolitana. Essa Catedral possui um piso magnífico. É uma espécie de mosaico com pedras pequenas como pastilhas, formando vários tapetes com motivos florais. Chamou minha atenção um outro detalhe. As vestes dos Santos são em tecido não em talha, como os santos do período colonial brasileiro.

San Telmo – chamou minha atenção a unidade e a preservação das edificações.

La boca – é um outro bairro muito interessante. Não tinha visto nada igual ainda. Fizemos uma visita guiada pelo museu do "Boca Junior" e fiquei encantada com o projeto arquitetônico. Existe um espaço no formato de uma bola, onde são projetadas imagens em telões. A impressão que se dá é que você está no centro de um estádio participando como jogador.

As construções das casas são um espetáculo a parte. Predominam casas de dois pavimentos, sem afastamento frontal e lateral muito coloridas. As paredes são revestidas com madeira ou chapa ondulada e recebem uma pintura com cores fortes. Predominando o azul, verde, vermelho e amarelo.

Estância “La Mimosa”- É linda e tem tradições gaúchas. Algumas das danças apresentadas no restaurante são as mesmas ou pelo menos muito parecidas, com as danças das churrascarias brasileiras do Rio Grande do Sul.

Viejo Soho – É um espaço cultural do tango que fica em Palermo. Lá fomos recebidos com champagne e depois de ouvir um trio de músicos tocando tangos, jantamos no mesmo local.

Recoleta – é um bairro interessante. Possui prédios de valor arquitetônico, muito bem preservados, lindas praças, Cafés e isso tudo convivendo com um enorme cemitério que é uma atração turística. Uma coisa impressionante: um cemitério que é ponto turístico.

Ostentação do luxo até na morte. As edificações com detalhes preciosos, a grande maioria revestida de mármore ou granito. A característica que mais chamou minha atenção foi a forma de como os caixões são colocados nestas edificações. Não se enterra. Eles ficam empilhados, a grande maioria tem um subsolo com uma escada de acesso. No 1º piso encontra-se geralmente um altar com imagens das pessoas que estão ali. Vemos os caixões (muito rebuscados) e é como se ali fosse uma casa. Os túmulos que não recebem manutenção são pavorosos.

Fiquei tão impressionada que se o grupo não fosse tão divertido e gozador, eu teria ficado uma semana dormindo de luz acesa...

Ao lado deste cemitério está a Igreja de Nossa Senhora do Pilar, datada de 1732, e um Mosteiro. São dois representantes da arquitetura de terra.

Nossos passeios programados sempre terminavam com almoços ou jantares deliciosos. Regados a vinho, muita carne e sobremesas geladas. Aliás, como são carnívoros os argentinos! E comem muita massa também.

Conheci pessoas maravilhosas e encantadoras. Pessoas que dão um show de vida, um grupo muito animado e divertido. Os espanhóis são muito festeiros. Tudo era motivo de piada, observou a guia de turismo que foi contratada para descrever a parte histórica da Cidade, La Boca e Recoleta. Foram dois dias diferentes com ela. No primeiro ela ficou tão emocionada que chorou no final da explanação. Aliás, muito bem feita. Ela descreveu detalhes de tudo. Acho que o grupo pôde fazer uma imagem mais precisa do lugar onde estava.

A experiência mais marcante para mim, talvez, tenha sido o dia em que fomos ao teatro assistir a peça “La isla desierta”.  A começar pelo ritual para entrar na sala do espetáculo. As pessoas ficam em fila e colocam a mão no ombro da pessoa da frente. Um dos atores puxa a fila e entra na sala do espetáculo. Tudo completamente escuro. Eu não enxergava nada, absolutamente nada, uma sensação de insegurança e aflição. À minha frente estava Teresita. Atrás de mim estava Tia Elizabet. Quando sentamos senti um alívio. Terezita, então, foi me dizendo como imaginava que era a sala. Disse-me que era maior em uma das direções, pegou em minha mão e mostrou o sentido. Ela disse que percebia isso pelo retorno do som. Ao final da peça, com as luzes acesas, a sala era exatamente como ela me descreveu. Incrível. Eu imaginei um lugar completamente diferente.

Antes do início do espetáculo, naquele breu total, Anselmo, que estava ao lado de minha tia, segurou minha mão e perguntou como eu estava me sentindo. Eu disse que não via nada e que estava insegura. Ele respondeu:

”tampouco eu vejo nada, então estamos iguais. Mas fique bem, você vai gostar da experiência”.

E gostei mesmo. Senti na pele o que é estar em um lugar, com barulhos, cheiros e movimentos a sua volta e não ter idéia de que forma tem o lugar, que cores têm, que pessoas estão ali. O medo de esbarrar em alguma coisa e machucar foi uma preocupação logo que entrei naquela sala escura. O espetáculo foi fantástico. Entendi 80% da história, porque eles falam rápido demais!

Foi uma programação intensa, mas não cansativa. Fizemos alguns passeios sem o grupo. Eu, Hector e a Tia. Conhecemos um restaurante Espanhol com uma comida “mui rica”. Fomos a uma exposição do Quino, criador da Mafalda. A um sebo onde encontramos um vendedor muito simpático que se antecipou em dizer que nós entendíamos tudo em espanhol e que ele não entendia o português. Minutos antes tínhamos conversado sobre isso. Fizemos algumas compras, fomos a cafés aconchegantes e andamos, andamos e andamos... É muito tranqüilo caminhar pela Cidade.

Conheci pessoas muito especiais. Histórias tristes, outras alegres. Vários cegos com a mesma enfermidade da minha família. Dei uma de voluntária em algumas situações, socorrendo um aqui outro ali.

Tenho uma Tia amiga e companheira. Não tivemos nenhum atrito e nos divertimos muito. Eu fui os olhos da Tia e ela foi a minha boca. Ela me socorreu várias vezes como minha tradutora intérprete.

La despedida es una mierda”, disse Puri segurando o choro quando uma parte do grupo se despedia. Fiquei emocionada com Anja e chorei depois que ela se despediu de mim.

Guardarei para sempre este encontro e as pessoas que conheci.

Em um ano tão cheio de emoções fortes, de perdas e decepções essa viagem foi um aprendizado de vida. Em todos os sentidos. Pelas pessoas que conheci, pela Cidade de Buenos Aires e pelo Tifloencuentro.

Enfim, o saldo foi positivo. Tão positivo que eu não queria voltar para o Brasil.

Amei Buenos Aires.

 

Luciana Angélica de Sá Machado
Arquiteta urbanista
luciana.sa@terra.com.br

 

(*) Encontro de pessoas cegas da Europa e da América Latina, ocorrido em Buenos Aires, entre os dias 14 e 22 de Agosto de 2004 e organizado pela equipe de “Tiflolibros”, primeira biblioteca virtual para cegos de língua espanhola.

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