Lazer Sem Deficiência.

 

Elizabet Dias de Sá.

 

O lazer é muito importante na vida das pessoas. Sem lazer, a rotina torna-se insuportável, a vida fica monótona, tediosa e tensa. Necessitamos aliviar as tensões por meio de atividades descontraídas e fora do quotidiano. Nem sempre, porém, o lazer é concebido e assimilado como algo desejável e necessário à boa saúde. A experiência do lazer é aprendida e deve ser cultivada de forma natural na vida da criança e do adulto. A criança educada em ambiente que valoriza a brincadeira e a interação social poderá desenvolver hábitos e atitudes saudáveis , exercitando sua criatividade e imaginação. A escola e a família influenciam consideravelmente o despertar de interesses e a dinâmica do lazer. Algumas pessoas sentem culpa, quando se vêem atraídas pelo lúdico porque aprenderam a incorporar o lazer como preguiça, perda de tempo e irresponsabilidade. A recusa de lazer e a obsessão pelo trabalho são mecanismos neuróticos que enrijecem a personalidade e encobrem conflitos. O apego excessivo ao lazer como fuga da realidade é também mecanismo de defesa e não busca de prazer.

 

LAZER PARA TODOS

O lazer na vida de uma pessoa cega é tão importante quanto na vida de qualquer pessoa. Entretanto, sua presença em festas, clubes, parques, cinemas, teatros etc. chama atenção. As pessoas que não conseguem imaginar a vida sem a utilização dos olhos, curiosas, fazem perguntas e comentam. Estranham quando um deficiente visual manifesta seu desejo de ir a um vernissage ou fala sobre um filme que assistiu. O desenvolvimento de atividades de lazer especialmente preparadas para crianças e adultos com deficiência visual não deixa de contribuir para reforçar a segregação. O agrupamento de pessoas cegas pode trazer certos benefícios do ponto de vista da interação, porém, pode criar o hábito do convívio "entre iguais", o que pode dificultar a integração com os "diferentes" e produzir uma espécie de socialização segregada. A verdadeira integração destas pessoas será alcançada quando conquistarmos a aceitação recíproca, o convívio espontâneo e a receptividade natural entre as pessoas em todas as situações e circunstâncias da vida. Para isto, certos estereótipos existentes em torno da cegueira precisam ser superados através do respeito à individualidade. Carrol (1968), referindo-se à restauração das inúmeras perdas decorrentes da falta da visão, enumera formas de recreação possíveis para as pessoas cegas e observa:

"Estabelecendo-se amplas formas de recreação, diversos fatores devem ser lembrados. As possibilidades devem ser para cada indivíduo suficientes, numerosas e variadas para se adaptarem à sua personalidade, sua formação, seus preconceitos e preferências. Alguns novatos que se dedicam ao trabalho com pessoas cegas ficam felizes ao saber que existem tabuleiros de xadrez e jogos de dama especiais para os mesmos, como se isso e outros dispositivos semelhantes pudessem resolver todo o problema de recreação. Devemos ter em mente que os tabuleiros de xadrez especiais são muito úteis, mas, somente para as pessoas cegas jogadoras de xadrez, quando querem jogar xadrez."

As opções de lazer para as pessoas cegas serão restritivas somente em situações em que a visão desempenha um papel indispensável e dificilmente, alguém terá seu interesse voltado para desempenhar o impossível. Se assim for, antes de promover seu lazer, será recomendável compreendê-lo ou assisti-lo psicologicamente. Carrol esclarece

"aquele que ficou cego enfrenta o fato de que certas formas de recreação - e algumas de suas favoritas - tornaram-se absolutamente impraticáveis. Possivelmente, haja a necessidade de ajuda psicológica especial para interpretar o significado da perda e ajudar o indivíduo a procurar uma compensação."

A limitação sensorial pode ter como conseqüência o isolamento, uma vez que o mundo está organizado em função das pessoas que enxergam. Formas passivas de lazer costumam ser preferidas por indivíduos que não conseguem superar as dificuldades da integração. Em muitos casos, o lazer solitário é um refúgio, uma proteção.

 

DO LÚDICO AO PEDAGÓGICO

Os primeiros anos de vida demandam cuidados especiais, sobretudo, por parte da mãe com quem a criança está visceralmente ligada. As atitudes maternas serão decisivas no processo de desenvolvimento infantil. O bebê cego não pode tornar-se um "peso morto, uma cruz, um carma, expiação" ou algo assim, pois é uma criança como qualquer outra. A mãe e todos os familiares devem lembrar-se de que ela não pode ver, substituindo os sinais e gestos por uma comunicação oral e tátil. A criança cega aprenderá a conhecer as pessoas, a discriminar os objetos e as situações por meio do tato, da audição, do olfato e dos demais sentidos. Ela necessita entrar em contato pegando, manipulando, cheirando. Tudo pode acontecer no ritmo da vida doméstica, sem perturbar a harmonia da casa. O banho diário pode ser um momento de prazer, relaxamento e aprendizagem. O contato com a água tranqüiliza e oferece boa oportunidade para a exploração de e reconhecimento do corpo. A hora das refeições pode transcorrer sem drama. A criança aprenderá a comer sozinha desde que instruída com energia e paciência. Será capaz de formar hábitos de higiene, vestir-se, movimentar-se e brincar como qualquer outra criança. A criança cega pode e deve ser incluída em todas as brincadeiras, observando-se eventuais adaptações. O contato com companheiros que enxergam é saudável para todos. Os brinquedos não devem ser vistos como situação de risco ou de perigo. A criança cega deve aprender a lidar com riscos e limites reais e não imaginários, bem como aprender a lidar com a própria limitação. Não há porque ignorar ou negar a falta da visão. Ela aprenderá a identificar sons, ruídos, odores e outras pistas que possibilitem localizar obstáculos e evitar o perigo. A criança deve conviver com a frustração e a gratificação. Suas vontades e caprichos não devem ser satisfeitos pela simples razão de não enxergar, assim como não devem ser negados ou escamoteados pela mesma razão. Não se trata de discriminar tipos de brinquedos ou brincadeiras especiais. Trata-se de compreender que essas crianças necessitam de indicações e de referências não-visuais. Assim, ela poderá integrar-se à família e ao meio social sem dificuldades adicionais. A escola especial ou não deve valorizar o lazer, reconhecendo sua dimensão pedagógica, não excluindo a criança ou a recreação. O gosto pela brincadeira deve ser estimulado, oferecendo-se oportunidades de escolha. O interesse pela leitura pode tornar-se mais tarde opção de lazer, assim como a prática de esporte, ginástica e dança tão importante no desenvolvimento psicomotor. O lazer tem função educativa, terapêutica e social. A expressão corporal, através da dança e de outros exercícios ritmados, é uma experiência valiosa no sentido de corrigir tiques, maneirismos e agitação, observados, especialmente, em algumas crianças segregadas em instituições residenciais. Nada melhor do que jogos coletivos, prática de esportes e atletismo para estimular a socialização. Não se trata de criar academias e agremiações especificamente destinadas às pessoas cegas. A deficiência não deve servir para alicerçar guetos e redutos que se tornem verdadeiros anteparos contra o preconceito e a discriminação. A existência e a proliferação de entidades esportivas, recreativas ou assistenciais, cujos associados são exclusivamente pessoas cegas, parece indicar que a luta pela integração deve assumir, paradoxalmente, formas segregadas de organização. Os torneios, competições, exposições recitais, shows e apresentações executados por grupos de pessoas cegas podem contribuir para a desmistificação e valorização de suas potencialidades e, ao mesmo tempo, podem incentivar um estilo de "vida em bando". Os rituais de visitação aos zoológicos, aos museus, as excursões e outras incursões de lazer coletivo programados para pessoas cegas, embora aconteçam por razões relevantes, sugerem a configuração de uma vida gregária. Estes aspectos e sutilezas da prática do lazer entre pessoas cegas não devem ser tomados como crítica depreciativa ou ataques pejorativos. São pontos de questionamento e de reflexão. Não acredito em paliativos anti-segregação ou em receituário de integração. Acredito na plenitude do ser humano. Portanto, não me parece estranho o lazer compartilhado e o desejo de lazer. Estranho, preocupante e, talvez, grave seja a falta de vontade e de interesse diante dos prazeres da vida.

 

Elizabet Dias de Sá é psicóloga e trabalha na Secretaria de Educação da Prefeitura de Belo Horizonte, Minas Gerais.

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