Para saber mais.

 

Tezza vende sua alma à paternidade.
O ano é de Cristovão Tezza, pela franqueza emocionada de seu "O Filho Eterno", relato duro que expõe em linguagem enxuta suas entranhas e angústias.

 

Fabrício Carpinejar.

 

Não há literatura sem crueldade. Escrever o que a maioria das pessoas tem vergonha de pensar. Escrever o que é politicamente errado, inseguro e incerto. Escrever o que não se diz publicamente, o que se esconde.

O ano é de Cristovão Tezza, catarinense radicado em Curitiba, pela franqueza imperturbável e emocionada de O Filho Eterno. Autor de 14 livros, já premiado pela Biblioteca Nacional, Academia Brasileira de Letras e Bravo!, pagou o preço da exposição biográfica. Foi extremamente cruel consigo.

O Filho Eterno (Record, 222 págs., R$ 34,00) narra o desconforto de um estudante de Letras, 28 anos, que vive de bicos, ao receber a notícia de que seu primeiro filho tem síndrome de Down. Não suporta a pressão social, muito menos desagrada não poder apresentar seu filho deficiente aos amigos. Enxerga-se como "um pai sem filho".

Testemunham-se a hesitação e a covardia emocional. Nos anos 80, período de incipientes informações e tratamento sobre trissomia do cromossomo 21, sofre com as brincadeiras sarcásticas dos conhecidos. "Você é tão inteligente e não conseguiu nem fazer um filho direito." Ou com a piedade de desconhecidos. "Você não tem culpa disso."

É esta proeza de representar a insegurança paterna que torna o romance vertiginoso, nervoso, duro. Tezza não sabota seus pensamentos da época, expulsa os preconceitos como que carregando didaticamente cada um deles na própria pele. Expressa o que é abominável, humanizando as vacilações. Não deseja o filho, depois deseja a morte do filho. É muita coragem publicar isso.

Ainda mais com as semelhanças entre a trama e a vida pessoal. Cristovão tem um filho portador de necessidades especiais, de mesmo nome Felipe. E não mudou o nome dele na história porque todo vínculo soaria falso. O autor não escolheu o caminho mais fácil: expõe suas entranhas, angústias e incertezas, retrocessos e avanços, a desencapar o cotidiano e transparecer as terminações nervosas da paternidade.

Numa linguagem enxuta, de períodos curtos, segue um andamento cênico, de dramaturgo ora vestindo e desvestindo de luz as cenas nucleares. Um exemplo da secura intensa é a primeira vez que mãe, pai e filhos ficam juntos num quarto. "Três estranhos em silêncio. Não há o que abraçar." Adiciona à ação dramática o respiro de apontamentos livres e análise das situações de um ensaio, que viabiliza uma pausa reflexiva.

A estratégia adotada para não parecer tudo muito pessoal foi adotar a narração na terceira pessoa sem especificar o nome do pai, escudando o fluxo, desse modo, dos riscos do derramamento e retardando o julgamento e possível antipatia do público às suas idéias.

A indefinição salvou o romance da catarse, da culpa e do pessoalismo. É e não é Tezza. Melhor: o personagem é Tezza mais sua ficção. Não responde a biografia de uma vida, é também biografia de uma imaginação. Com uma postura baudeleriana, acusa a si mesmo sendo outro, sem poupar críticas à sua ingenuidade hippie e seu encantamento on the road. O que agrada no volume é a posição distanciada escolhida por Tezza, tão leitor do que aconteceu quanto o leitor.

No enredo, o protagonista absorve os socos - que socos - de sua inapetência e fica de pé. "Era uma mistura de ideologia e de inadequação, de sonho e de incompetência, de desejo e de frustração, de muita leitura e nenhuma perspectiva."

Experimenta-se uma sucessão de descobertas. Uma delas é que o filho com Down mergulha num eterno presente, o que aconteceu ontem não será lembrado. Ele observará o pai como se o visse sempre pela primeira vez. Tais conclusões inutilizam inclusive a possibilidade de escrever um livro para ele. "Jamais conseguirá lê-lo."

Do confronto, o cuidado para não sobrecarregá-lo de negativas mais vezes do que necessário e respeitar o seu ritmo. Na exibição no torneio de natação, o filho tira o último lugar e comemora que é "campeão", não entendendo a "abstração da disputa". O pai busca explicar que o campeão é o primeiro até que desiste de mais uma convenção ridícula para valorizar quem cumpriu certinho o percurso.

Desenvolve sua consciência - percebendo que procura fotografar o menino pelos ângulos em que seu rosto não aparece trissômico -, vai musculando sua esperança e admitindo que é ele que carece de avaliação, não o menino. O pai encarna o filho. Rejeita seu ponto de vista etéreo, genérico e superficial para tomar uma posição pessoal calcada na experiência. A autocrítica pesada esmaece a resignação e atinge a leveza do entendimento. Da rejeição ao desespero de extraviar o filho, quando ele some do apartamento.

A transformação gradual ocorre simultaneamente ao nascimento do escritor. Alterna a criação do bebê com flash-backs de sua expedição com uma trupe teatral, trabalhos clandestinos na Alemanha e preparação dos primeiros livros A Cidade Inventada e Terrorista Lírico. O filho o ensina a não mentir e aceitar as imperfeições como parte da verdade.

A mágica da obra é o entrançamento do aprendizado do filho com a descoberta autoral. O escritor reconhece que se defende dos mesmos preconceitos que a criança, para conseguir ser aceito pela sociedade e garantir um lugar numa editora. Ambos partilham de igual solidão especial. A pergunta "o que é normalidade?" tanto parte do escritor como de seu filho. "Eu também estou em treinamento", ele pensa, lembrando mais uma recusa de editora.

O Filho Eterno é um manual de paternidade, e ainda um breviário de escrita criativa. Fornece algumas dicas fundamentais para quem está iniciando a arte literária: "Interromper o texto num bom momento com vontade de continuar imediatamente" e constatar que ninguém está o mandando escrever. Escreve porque quer e precisa. Cristovão Tezza se reinventou para seu passado, trabalho mais frágil e cintilante do que inventar um passado.

 

Fabrício Carpinejar é jornalista, professor universitário e poeta, autor de Meu Filho, Minha Filha.

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