Entrevista:
Alfabetização de alunos usuários do Sistema Braille.

 

Leonardo Raja Gabaglia.

Elizabet Dias de Sá é psicóloga e educadora. Gerencia a Coordenação do Centro de Apoio Pedagógico às Pessoas com Deficiência Visual de Belo Horizonte (CAP-BH). É também coordenadora de conteúdo na área da deficiência visual do Curso de Formação Continuada de Professores na modalidade à distância, promovido pelo MEC/SEESP em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC).

Maria da Conceição Dias Magalhães é pedagoga, especialista em Alfabetização e em Educação Infantil. É professora de atendimento educacional especializado da rede municipal de Belo Horizonte.

1) O que representa para a pessoa cega a leitura e escrita braille?

Elizabet: O Sistema Braille possibilita o contato direto com a grafia, o que é muito importante para a compreensão e o emprego das letras, das palavras, do sistema de pontuação e de acentos, especialmente no caso das pessoas que nasceram cegas. Para estas pessoas, o Sistema Braille representa uma emancipação, uma porta de entrada no mundo da leitura e da escrita de forma autônoma. Por outro lado, o braille é uma modalidade de leitura e escrita alternativa ou complementar restrita a um universo particular de leitores. Quem perdeu a visão na juventude ou na idade adulta e tem um nível médio ou superior de escolarização recorre aos meios informáticos para ter acesso à leitura e à escrita uma vez que a produção braille é escassa e limitada.

Conceição: Vivemos imersos em uma cultura letrada, em um mundo grafocêntrico, no qual, ler e escrever é fundamental para todos. O Sistema Braille permite que pessoas cegas façam parte desta cultura.  Em questões práticas e pessoais, a escrita em braille representa a possibilidade de estas pessoas serem mais autônomas em casa ou no trabalho. Com este aprendizado, podem utilizar dos benefícios da língua escrita na comunicação, na busca de informação, como auxílio à memória, na diversão e organização (etiquetagem ou arquivamentos de seu material).

Em relação à leitura, o braille é o único caminho que permite a interação leitor/texto, pois via tato a mensagem passa direto do texto para o leitor. Um fato real é que o aprendizado do braille não torna o leitor cego totalmente independente, pois grande parte do material escrito que circula na sociedade (documentos, determinadas propagandas, catálogos informativos etc) não são transcritos para o Sistema Braille.

2) Quais os domínios fundamentais ou requisitos devem possuir as crianças cegas para o sucesso na alfabetização?

Elizabet: As crianças cegas devem ser estimuladas desde cedo no que diz respeito à exploração do sistema háptico (o tato ativo ou em movimento) através de atividades lúdicas, do brinquedo e de brincadeiras. Elas devem desenvolver um conjunto de habilidades táteis e de conceitos básicos que tem a ver com o corpo em movimento, com orientação espacial, coordenação motora, sentido de direção etc. Tudo isto é importante para qualquer criança.

O diferencial no caso da criança cega é o de desenvolver estratégias de aprendizagem a partir de um referencial perceptivo não visual, que contempla os sentidos remanescentes. Para isto, é fundamental entender que a percepção tátil é diferente da percepção visual. Um objeto é percebido parcialmente pelo tato que analisa os fragmentos para formar o todo, enquanto a visão é global, instantânea e sintética.

Uma pessoa que enxerga é capaz de vislumbrar uma página inteira de um livro e realizar uma leitura dinâmica. A partir da visão global, pode-se explorar visualmente as partes, os detalhes e as minúcias. No caso do tato, a percepção faz o caminho inverso, isto é, das partes (letras, sílabas e palavras) para o todo. O trabalho de alfabetização de crianças cegas será mais fácil e bem sucedido se estas características e suas implicações pedagógicas forem bem compreendidas e assimiladas pelos educadores. O papel da família e de outros mediadores é igualmente importante neste processo.

Conceição: O sucesso da alfabetização está ligado aos benefícios que a criança percebe deste aprendizado, ou da valorização (incentivos e retornos positivos), que as pessoas de seu entorno irão dar a cada avanço apresentado por ela, no decorrer do aprendizado. Para a realização da escrita ou leitura em braille, é necessário que a criança conheça convenções, assimile conceitos gerais e específicos, desenvolva habilidades e destreza táteis.

As letras, em braille, são combinações de seis pontos em duas colunas, o que envolve conceitos numéricos e orientação espacial. Estas noções são muito importantes para a percepção e reprodução das semelhanças e diferenças das combinações dos pontos que representam as letras. O tato, a destreza tátil e a coordenação bi manual precisam estar bem desenvolvidos, pois tanto a técnica da leitura quanto a escrita das letras dependem de movimentos sincronizados das mãos e da percepção tátil de diferenças, bem sutis.

A escrita em relevo, realizada com a reglete, possui convenções que diferem das convenções da escrita em tinta ou mesmo da escrita em relevo realizada por meio da máquina de escrever em braille. No caso da reglete, a escrita é feita em sentido contrário, isto é, escreve-se da direita para a esquerda de um lado da folha de papel, enquanto se lê da esquerda para a direita no verso da folha. Já na máquina, a escrita em braille obedece às mesmas convenções da escrita em tinta, pois a escrita e a leitura são realizadas no mesmo sentido e do mesmo lado da folha de papel.

Alfabetizar é um processo bem mais amplo do que a decifração e a cópia de letras. É importante considerar que só nos apropriamos de um conhecimento quando sentimos necessidade ou prazer em utilizá-lo. Neste sentido, é fundamental a criança cega ter acesso, desde bem pequena, a materiais escritos e principalmente presenciar a ação do "escrever e ler" sendo praticada.

3) Estudiosos conferem valor significativo à consciência sobre a escrita, trazida pela criança à escola, para o sucesso da alfabetização. Como percebe esta situação na prática, com o comprometimento da interação da criança cega com os momentos de escrita dos pais, pela impossibilidade de observação dos materiais escritos disponíveis no dia-a-dia do lar e da rua e a perda da redundância dos apelos escritos das propagandas televisivas com áudios e imagens que são fatores citados como formadores desta consciência?

Conceição: Em minha prática como alfabetizadora de crianças que enxergam, percebi que muitos de meus alunos não davam atenção, não viam significado útil para eles, ou viam com resistência aqueles "riscos coloridos" impressos nos jornais ou papéis que a família juntava para vender, nas caixas de papelão que lhes serviam de mesa ou cama, nas embalagens dos alimentos ou nos letreiros espalhados pelas ruas onde brincavam. Suas experiências familiares transmitiam-lhes que ler e escrever eram "coisa de escola".

Aprendi com estes alunos que não bastava apenas ver, mas, era preciso atribuir sentido ao que viam e, muitas vezes, "desconstruir significados", considerando-se as influências, cobranças ou o desinteresse incutido pelas famílias ou pelas suas vivências de rua.

Apesar do desinteresse inicial, meus alunos foram alfabetizados e gostavam de ler porque tinham habilidades a serem exploradas, interesses, desejos e conhecimentos a serem compartilhados. Estes alunos enxergavam as letras e os símbolos, porém, não entendiam o seu significado, pois as crianças precisam saber ver e saber descrever o que vêem.

Neste sentido, a situação das crianças cegas é semelhante a destes alunos. Elas necessitam de mediadores para saber sobre o que está ao redor delas, para aprender a ver com os sentidos remanescentes e atribuir valores e significados ao que descobrem ou aprendem. Em ambas as situações, o papel do professor é o mesmo. Cabe a ele ensinar a todos, considerando cada sujeito.

Analisadas as necessidades e potencialidades do grupo de alunos, o professor deve articular e planejar seu trabalho, com as trocas possíveis, os materiais necessários e as estratégias mais adequadas, o que requer observação, avaliação contínua e estudos constantes.

Elizabet: Desde o berço, as crianças estão imersas em um universo eminentemente visual, permeado por letras, números, símbolos e outros apelos visuais. É inegável que os apelos gráficos e imagéticos são cada vez mais valorizados e explorados dentro e fora da escola. Os conteúdos e as atividades escolares estão inscritos em um universo centrado na visualização. Portanto, as crianças cegas ficam em desvantagem uma vez que não têm capacidade de visualização, o que compromete a imitação e representa uma restrição muito significativa. Elas necessitam mais do que as outras crianças da mediação através do contato físico e da fala do outro.

Neste contexto, o código braille deveria fazer parte do universo da criança em diversas situações do cotidiano, mesmo que ela ainda não saiba decifrar este código. Mas, ela poderá entrar em contato com os pontos em relevo representados em diferentes situações em casa e na escola. O código braille pode entrar na sala de aula para identificar objetos, brinquedos, nomes, na composição de crachás, na exposição de rótulos, na identificação de portas, do mobiliário e de outros espaços ou situações.

Daí, a importância de possibilitar a estas crianças condições adequadas para que elas tenham acesso aos conteúdos escolares e oportunidade de desenvolver habilidades básicas que têm a ver com a estimulação e a exploração dos outros sentidos. Por isto, estas crianças têm o direito a uma formação escolar complementar que se dará por meio do atendimento educacional especializado.

4) Qualquer método de alfabetização pode ser aplicado à criança cega?

Elizabet: A escolha de um método é muito importante e poderá favorecer mais ou menos o processo de alfabetização. Contudo, o método por si só não é garantia de que os objetivos da aprendizagem sejam alcançados. Muitos educadores baseiam-se nas peculiaridades da escrita em relevo, da leitura tátil e das características do tato para defender o método de alfabetização fundado na combinação fonema-grafema e descartam outras possibilidades. Sem contar que muita gente pensa que o Sistema Braille é um método de alfabetização. O processo de alfabetização e letramento é amplo e complexo indo muito além deste ou daquele método. Trata-se de compreender os esquemas de pensamento da criança e o sistema de representação alfabética.

Para se alfabetizar uma criança cega é necessário bem mais do que ter um bom domínio do Sistema Braille. É preciso saber como se dá o processo de construção do conhecimento por meio da experiência não visual e criar condições adequadas de acesso aos conteúdos escolares dentro e fora da sala de aula.

Conceição: A criança cega aprende tanto pelo método sintético (da unidade para o todo), quanto pelo método analítico (do todo para unidade). O que vai influenciar ou determinar o trabalho é o acompanhamento do processo. O importante é a criança perceber e entender a língua escrita, suas regras e suas convenções, saber sua função, ter interesse e desejo de aprender.

Qualquer método precisa levar em conta o sujeito que aprende e considerar as hipóteses que ele faz sobre o objeto do conhecimento. Deve levá-lo a refletir, analisar e reformular suas hipóteses, para que ele avance passo a passo na construção de seus conhecimentos. É necessário perceber o que a criança já sabe e ajudá-la a adquirir novos conhecimentos.

A melhor forma de se alfabetizar as crianças cegas é ensinar utilizando textos reais, ou seja, lendo e escrevendo com e para elas. Isso é válido para todos que enxergam ou não. A escrita precisa fazer parte da vida, ter um destinatário, um conteúdo, um motivo. A desvantagem para as crianças cegas é o fato de que o braille não é a escrita que circula, uma escrita cada vez mais rica em apelos visuais. Outro fato relevante é que o destinatário da escrita produzida por uma pessoa cega, geralmente, não é para outra pessoa cega e sim para pessoas que enxergam. Assim um diferencial no ensino, ou na alfabetização das crianças cegas é que elas precisam, além da codificação e decodificação em braille, aprender a utilizar a escrita, saber ouvir, conduzir a leitura de outro e produzir textos, com estéticas e normas visuais.

Alfabetizar, como para todos, é bem mais que codificar e decodificar.

5) São comuns depoimentos de pessoas cegas (ou de seus responsáveis), que avançaram as séries, em escolas regulares, sem nunca serem alfabetizadas ou descobriram que adquiriram uma escrita (Braille) extremamente equivocada. Este fato é presente nas observações do CAP-BH?

Conceição: Eu e mais quatro irmãos somos cegos e tivemos experiências e trajetórias diferentes. Fomos alfabetizados e sempre estudamos em escolas regulares, sem enxergar o que era passado no quadro e com muita dificuldade para enxergar as letras dos livros porque tínhamos baixa visão. Conheço outros cegos que também passaram por escolas regulares e estão no mundo do trabalho dando suas contribuições bem positivas.

A partir de minha experiência como professora em escola regular  e dos resultados de avaliações realizadas em escolas públicas e privadas, posso afirmar que a quantidade de alunos que "passa de ano" sem aprender e que se formam com déficits consideráveis em sua formação é uma realidade nacional.

Já trabalhei com alunos do ensino fundamental, cuja faixa etária era de 12 a 16 anos. Estes alunos enxergavam e não apresentavam nenhum tipo de deficiência. Entretanto, liam e escreviam com muito mais dificuldade do que os meus  alunos de seis anos,  que haviam concluído a educação infantil no ano anterior. Atualmente, faço parte da equipe do CAP BH como professora do atendimento Educacional Especializado. Neste trabalho, faço o acompanhamento do processo de alfabetização de três alunos cegos congênitos de escolas regulares da rede Municipal de ensino. Ao ensinar o braille e analisar a produção destes alunos no processo de apropriação deste sistema, percebo os avanços e as dificuldades. Analiso a natureza das dificuldades e, a partir desta análise, planejo as intervenções que julgo serem mais adequadas. Considero que o processo tem dado resultados bem positivos, uma vez que estes alunos demonstram interesse e apresentam desempenho satisfatório no processo de aquisição da leitura e escrita braille.

Elizabet: A presença de alunos cegos nas Unidades Municipais de Educação Infantil (UMEIS) e nos primeiros ciclos do ensino fundamental tem sido mais frequente nos últimos anos. A maioria dos alunos cegos da rede municipal de ensino de Belo Horizonte cursou os primeiros anos escolares em uma escola especial na qual aprenderam o Braille, assim como a maioria dos jovens e adultos cegos usuários do CAP-BH.

Observamos, no CAP-BH, entre os usuários do Sistema Braille, um desempenho sofrível no que se refere à ortografia e à escrita em geral. Muitos deles não gostam de ler e nem de escrever. Infelizmente, este é um fenômeno observável entre os escolares em todo o território nacional. Portanto, o problema é complexo e merece um estudo mais aprofundado.

Vale ressaltar a experiência de uma aluna cega congênita que foi alfabetizada em uma escola da rede municipal de ensino de Belo Horizonte. Esta aluna aprendeu o braille com uma professora de Sala de Recursos e a escola teve o apoio do CAP-BH na produção e adaptação de livros didáticos e de literatura infantil. Ela apresentava um excelente desempenho escolar, juntamente com seis colegas que mais se destacavam no processo de alfabetização em uma turma de 25 alunos.

Outro aluno de uma escola de ensino fundamental perdeu a visão e continuou na mesma escola com o apoio de uma professora de Sala de Recursos com quem ele aprendeu o braille. Esta professora ministrou um curso de braille para os professores deste aluno. Posteriormente, ele aprendeu a usar o computador na Escola de Informática do CAP-BH e concluiu com êxito o ensino médio.

Atualmente, temos um aluno, cego congênito, de oito anos, que se tornou um leitor voraz de livros em braille. Ele reconhece todos os sinais braille e apresenta uma leitura mais fluente do que a de outros alunos da mesma idade. Este aluno faz parte do atendimento educacional especializado do CAP-BH.

6) Quais são as principais intervenções do CAP-BH?

Conceição: Recebo orientações do CAP-BH e repasso as informações sobre o desenvolvimento de meu trabalho. Juntos, discutimos e avaliamos o processo de cada aluno. Analisamos o contexto da escola, da família, as condições materiais, as estratégias e planejamos o trabalho.

A equipe do CAP-BH também realiza o trabalho de orientação às professoras, de produção braille e adaptação de material pedagógico para o desenvolvimento das atividades com os alunos.

Elizabet: A atuação do CAP-BH é muito ampla. O nosso trabalho consiste em coordenar as ações na área da deficiência visual no âmbito da rede municipal de educação. Realizamos o cadastro de alunos cegos e com baixa visão, a produção e ampliação ou adaptação de material pedagógico, a orientação aos professores e às famílias, além de desenvolver atividades de formação. Oferecemos um curso de informática para pessoas cegas e com baixa visão.

Somos responsáveis pela produção braille de folders e outros conteúdos impressos para eventos, museus e outros setores da prefeitura de Belo Horizonte.

Recentemente, realizamos a transcrição para o braille da "Provinha Brasil", tendo em vista atender uma aluna cega de uma escola municipal. A "provinha" foi aplicada com orientação de uma das professoras do CAP-BH.

 

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