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CONFERÊNCIA MUNDIAL DA DbI
THE DEAFBLIND INTERNATIONAL ASSOCIATION

 

20 a 25 de Julho de 1999.
BICESSE - ESTORIL - PORTUGAL.

 

Ser Surdocego numa Sociedade que desconhece o que é a Surdocegueira.

 

Descobrindo novas formas de comunicação, e de acesso ao Mundo.
Testemunho de José Pedro Amaral

Vou contar-vos a história de uma Pessoa Diferente – como aliás todos nós o somos – numa Sociedade que pelo simples facto de não se conhecer a Si mesma, e a sua verdadeira estrutura, se encontra quase totalmente cega – por uma cegueira funcional, causada por uma excessiva exposição a um sem número de tipos de informação quiçá de qualidade duvidosa - face aos problemas deste Ser que é a sua Verdadeira Razão de Existir : o Homem.

Pois bem, quem Sou; e como sou; e qual tem sido o Meu Percurso até ao momento em que vos faço este relato.

Eu dou pelo nome de José Pedro Amaral; tenho 40 anos, sou Funcionário Público – Assistente Administrativo - e uma vida cheia de peripécias dignas de um melodrama, dos melhores que hollywood alguma vez possa ter filmado. Mas se Eu sou Estrela de algum filme sê-lo-ei, apenas e só, para dois dignos Espectadores: Deus – o Meu Deus - e Eu Próprio.

Como já afirmei atrás, tenho 40 anos; fiquei surdo tanto quanto se conhece, aos 3 ( três) anos de idade tendo-me sido aplicada, logo de imediato, uma prótese retroauricular; facto esse que teve um papel preponderante no facto de não ter perdido a fala, que ainda incipiente dos meus 3 anos, como ainda me permitiu ao longo da vida construir uma Cultura muito vasta, que vai da música – de todo o género, mas de qualidade - ao cinema bem como da leitura –. Comecei pela Banda desenhada das Histórias de Walt Disney até aos grandes Clássicos da Literatura Moderna - às viagens, por essa Europa fora – ocidental e de Leste - e ainda Republica de Cabo Verde em África.

Desde muito cedo, eu fui confrontado com problemas a nível da visão; lembro-me por exemplo, de que quando era criança e até aos 28 anos, lia quase tudo com a cabeça inclinada para a esquerda e sem óculos ou qualquer ajuda técnica, por mais pequena que fosse; mas lia, pois isso é fundamental para a edificação da estrutura mental do Ser Humano, e estou-me a referir às lupas manuais. A causa provável desta situação será, se o diagnóstico for exacto, o Síndroma de Staghardt.

É bom que fique bem claro o papel preponderante que a Família teve na minha forma de construir, na Minha Pessoa, uma capacidade de reacção e de Força de Vontade, de enfrentar as várias situações que, ao longo da vida, me foram surgindo. Salientarei a título exemplificativo o simples facto – mas de importância primordial para a minha formação – de quase nunca me ter ocultado os factos da realidade da vida quotidiana. Só assim é possível qualquer pessoa evoluir e enfrentar a verdadeira realidade.

Situações como as que nos são descritas com uma falsa consistência e um excessivo paternalismo e demasiada fantasia, levam-nos à criação de uma idéia inconsistente e falsa da realidade da vida, e do Mundo onde estamos inseridos; qual Alice no País das Maravilhas.

 

Só é possível evoluir e Crescer, com um desenvolvimento Natural das Relações Interpessoais; a ocultação das realidades abre caminho a Ilusões, que irão condicionar todo um percurso que se pretende Autónomo.

Sei bem como muitas pessoas, por esse simples facto, não conseguem dar passos perfeitamente naturais, e construir a sua capacidade de reacção e de fazer as suas próprias relações; com o mundo que as rodeia, não só por desconhecimento – causado por uma ocultação demasiadamente paternalista das realidades - mas, por esse facto, têm um medo tremendo de Cair num Abismo ; tal é a sua insegurança em relação a Si próprias, e ao Mundo que as rodeia.

Posteriormente em 1993, numa situação, ainda hoje, pouco esclarecida, fiquei quase totalmente surdo, durante 6 ( seis) meses; tendo recuperado uma parte da audição, mas tendo que substituir a prótese auditiva por outra mais potente. Só Deus sabe como recuperei!!

Nessa altura, pela primeira vez, tomei contacto com essa pequena maravilha, com mais de 100 anos, que Ann Sullivan tão habilmente concebeu para a sua pupila Hellen Keller: a escrita dos caracteres árabes na palma da mão; esse episódio passou-se no carro da minha irmã, quando regressávamos a casa, a altas horas da noite, vindos do Hospital, onde me desloquei de urgência na ânsia de controlar a situação e recuperar o pouco que ainda ouvia. Tendo ela necessidade de me dizer algo, mas porque estava escuro era impossível eu entender, até porque estava nervoso com o que estava a viver, ela agarrou na minha mão e começou a desenhar-me, letra após letra, as palavras do que me queria dizer. Confesso que a sensação que vivi, naquele instante, foi o de ter visto uma luz numa noite que se desenhava de perfeita escuridão. Mais tarde no meu Espírito surgiu a recordação de um filme que vi, um dia, de 1962, bem elucidativo sobre esse assunto: The Miracle Worker.

Ainda bem que eu gosto de aprender, e evoluir, com coisas novas – fui sempre assim, curioso – porque há 3 (três) anos atrás o pouco que restava da audição desapareceu, quase na totalidade; e, para além do já existente Síndroma de Staghardt surgiram Cataratas. Enfim, nada do Outro Mundo; passei a ser um Surdocego, com características muito Pessoais; pois para além de nunca ter tido necessidade de aprender a L.G.P. – Língua Gestual Portuguesa – tive que reequacionar quase totalmente, a forma de receber a comunicação dos que me rodeiam. Foi só uma questão de adaptação; e usar a capacidade intrínseca para superar situações mais ou menos adversas. Mas, com a Força e capacidade - que trago em Mim - de reagir, e com o apoio de toda a Família, colegas e amigos que nunca se abstiveram de me estimular e apoiar em todos os passos que dei, consegui contornar as barreiras – não só técnicas, arquitectónicas como até ideológicas – porque existe em Mim uma capacidade de acreditar, no essencial: EU PRÓPRIO COM TODO O MEU POTENCIAL inserido na Sociedade da qual sou – ou procuro ser – parte integrante.

 

A celebração de sucessos de outrém, é a demonstração inequívoca, do acreditar nas suas verdadeiras potencialidades; e uma demonstração de um perfeito Conhecimento de Si Próprio, por parte de quem o pratica.

O meu maior problema – e de todos os que são de algum modo diferentes, e ninguém é perfeito, (Perfeito foi Jesus Cristo; e por O Ser foi Crucificado pelos homens!) é que quando os enfrento, e eu próprio lhes tento dar, e mostrar aos que me rodeiam, as soluções para os Meus - e não só - casos e problemas, as pessoas – a Sociedade – pelo simples facto de não se conhecerem, e acreditarem, nas Suas próprias capacidades, pura e simplesmente, – para além de, muitas vezes, fazerem fraca figura – me barram o caminho.

Exemplo disso são as inúmeras situações que vivi – e vivo ainda hoje - ao longo da minha vida - algumas quase inultrapassáveis - nos colégios por onde passei; e, felizmente, foram muitos; pois a permanência prolongada no mesmo colégio, sempre com as mesmas pessoas, dava azo, na maioria das vezes, à criação de idéias pré-concebidas e estereotipadas - de fundamento, sempre, algo controverso e duvidoso - a respeito de uma Pessoa – neste caso eu - só pelo simples facto de ela ser diferente - em Si - mas igual a tantos outros. E, não foi só na escolaridade, no mercado de trabalho a situação manteve-se ao longo de 17 (dezessete) anos, em que vivi situações de perfeita instabilidade e precariedade de emprego, pelo simples facto de as minhas limitações não oferecerem garantias de rentabilidade.

Mas a espera e a persistência são, hoje e sempre, as melhores conselheiras. Nós Portugueses, temos um ditado muito popular que diz: “Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

Hoje, após um longo período – o mais longo e no mesmo local – de instabilidade de trabalho consegui – após Concurso Público – ingressar na Função Pública, nos Quadros da Escola de Pesca e da Marinha de Comércio; onde estou há quase 9 ( nove ) anos – e estive 7 ( sete ) em regime precário.

Durante 6 ( seis) anos fui operador de máquinas de fotocópias e executei tarefas administrativas, e atendimento ao público e de telefones; mas porque a visão se complicou, e a audição se extinguiu, presentemente estou colocado na Biblioteca da Escola; sem qualquer função atribuída, com um ampliador de caracteres – que é minha pertença – a ocupar o tempo a ler; por mero desinteresse, e desconhecimento, de quem de direito, das potencialidades e capacidades – que existem - da- minha Pessoa. E, a titulo de exemplo limitar-me-ei a referir que desde 23 – 11 – 98 – por minha própria iniciativa – me encontro a freqüentar uma Acção de Formação, na área da informática, para invisuais – Windows 95 /98 associados ao Lunar 95 e Word 97 – apenas só três horas diárias, sem qualquer possibilidade de praticar no local de trabalho – embora haja suficientes meios informáticos disponíveis – pelas mesmas razões que atrás referi: incúria, desinteresse e falta de informação e de vontade de a obter.

Mas devo concluir sem sombra de dúvida, que neste mundo ser-se diferente é mera rampa de lançamento, pare uma trajectória que â partida nunca terá, sequer, uma Carta de Navegação; mas, por força das dificuldades o alcançar dos objectivos, traz-nos a oportunidade, quase única, de experimentar-mos momentos de perfeito júbilo. Somos tão diferentes, que até sabemos lutar pelos objectivos a que nos propomos; mas quando nos deixam.

Alguém afirmou um dia:

“Obstáculos; é o que cada um vê, quando tira os olhos dos seus objectivos.”


Mas confesso que ser-se um Surdocego – adquirido e autónomo – não é fácil; certamente, sê-lo congénito sê-lo-á muito mais complicado; não digo Impossível, porque tenho uma postura de abstenção quase total da pré-concepção da vida, e do rumo, de cada pessoa; mas lá que é difícil, lá isso é! Mas não é impossível, porque esses não existem...!

Exemplos disso são as situações, que vezes sem conta, com que eu, quer na via pública, repartições oficiais, estabelecimentos comerciais, centros de saúde e hospitais, sou confrontado; quando me dirijo a uma pessoa, e lhe digo que sou Surdocego, e, que, por esse facto, não oiço e vejo muito mal; e, ainda, quando lhe digo que me pode escrever na palma mão, em letra de imprensa, com a ponta do dedo indicador, ou com uma caneta virada ao contrário, na palma da minha mão, surgem situações quiçá caricatas; em que das duas uma: ou desatam aos berros ao meu ouvido – sem êxito, mas que quase pára o tráfego – ou, sem me darem tempo para reagir, tiram a tampa da caneta, e... zás! Toca a escrever, na minha mão, COM TINTA; para além das vezes que se recusam a faze-lo - o tal, antiquado, preconceitozinho de tocar carne alheia – talvez, talvez não tenho a certeza absoluta, por medo de o fazer mal, desconhecimento, e falta de credibilidade em Si próprios – ou falta de informação sobre o SIDA.

Mas, há pessoas que, felizmente, não olham a meios, para fazer com que esse fosso de alguma escuridão e silêncio seja quebrado; e, posso-vos relatar mais um episódio, que se passou recentemente num Seminário em Lisboa; onde me desloquei sozinho – pois o tema era deveras interessante; versava sobre um tema que se debruçava sobre a questão da Filosofia da iluminação e a forma como os invisuais, e não só, têm a percepção do mundo onde estão inseridos: “A luz e a cor” - pois não me foi disponibilizada/o, pela associação a que pertenço, um interprete; vivi, mais uma vez, uma situação de perfeito desinteresse e, até, falta de qualquer tipo de informação, de como lidar, e ajudar, com este tipo de situações. A minha sorte, foi que quando me encontrava à espera, porque quase fui esquecido, que me arranjassem alguém que se dispusesse a ajudar-me; surgiu ao meu lado alguém que pegou, muito delicadamente, na mão – essa pessoa já me conhecia de vista da A.P.S.- Associação Portuguesa de Surdos, da qual faço parte como Director do D.A.P.Sc. – Departamento de Apoio à Pessoa Surdocega, mas nunca me tinha dirigido a palavra – e escreveu «Olá bom dia!».

Essa pessoa, tão amável, fez, durante o tempo que permaneci no seminário, uma verdadeira Ponte entre mim e o Mundo que girava em meu redor; e assim contribuir para quebrar e diminuir o fosso entre ambos; o Mundo e Eu. Mas, mais uma vez, as pessoas ao serem confrontadas com uma situação, para além de desconhecida, que não sabem controlar - por ausência de conhecimento de Si mesmas e do Mundo a que pertencem – teceram comentários do género: “ Olhem só para aquela ali, a escrever tudo na mão do rapaz. Que frete!” ou “Eu, não era capaz!” e ainda “Que faz aqui um surdocego?!

Estas expressões são bem elucidativas de uma mentalidade tão fechada – e tão pré-concebida – ao exterior que dificilmente lhes permite um, pequeno que seja, olhar pelo mundo onde habitam.
A essas pessoas, para que tentem, ao menos, um pequeno abrir de olhos – em ano de atribuição do 1º Prémio Nobel da Literatura a um Escritor Português – citarei, um pensamento desse mesmo escritor - José Saramago - extraído do seu livro: “Ensaio sobre a Cegueira”; que diz textualmente o seguinte:

“Se puderes ver, olha; se puderes olhar, repara.”


Mas, como já afirmei atrás, também pessoas há que sabem bem qual o seu lugar, e papel, no mundo; e são bem capazes de ser Espelho.

Essas são as que nos permitem, de alguma forma, Ser Pessoa; e isso é admirável.

Pois; é precisamente para essas pessoas, admiráveis, sejam elas quem forem, que eu no final desta meu testemunho me quero voltar; com uma, sentida e singela, Homenagem; com um pequenino Poema; escrito por mim após a leitura de um pequeno texto, num livro das Selecções do Reader’s Digest; O A B C do Corpo Humano, com titulo: “A Mulher que Via com as mãos”; Tratava-se, pois, de um resumo da belíssima, e edificante, história de Hellen Keller e Ann Sullivan.

 

Para essas pessoas e para todos vós que, connosco, partilhastes estes dias, com as experiências de cada um, e de todos; despeço-me, com esse pequenino Poema
“Viver... Sentindo”

Na ausência dos sons
Na indefinição da visão
Há um mundo que desperta
Na minha palma da mão.
Um mundo de palavras
Cheias de Cor;
Cada toque na mão
É uma dádiva de amor.
O amor entre dois Seres
Que se completam;
E dão razão
À palavra AMOR.

Obrigado, Felicidades para todos, e até Sempre!

José Pedro Amaral.

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