Palavra do Educador - Ensino na prática.

 

Por: Belisa Frangione.

Foto: Arquivo Pessoal

Imagem.
Descrição da imagem: Elizabet Sá usa blusa escura com flores de várias cores em
seu lado esquerdo há o texto: "Ensino na prática - Conheça a história de Elizabet Sá.
"

Elizabet Dias de Sá, de Minas Gerais, é psicóloga formada pela Universidade Federal de Minas Gerais e pós-graduada em Psicologia Educacional pela Pontifícia universidade Católica de Minas Gerais. Ela também é docente e palestrante em cursos de formação e de especialização em educação especial e inclusiva, além de autora de artigos e livros na área da deficiência visual. E uma particularidade: "Nasci com baixa visão em decorrência de retinose pigmentar, uma degeneração da retina, e perdi progressivamente a visão. Em minha família, somos oito irmãos dos quais cinco são deficientes visuais pela mesma razão", ela conta.

A psicóloga e educadora é gerente de coordenação do Centro de Apoio Pedagógico de Belo Horizonte (CAP/BH). Seu principal objetivo é "garantir aos alunos com deficiência visual total e aos de baixa visão da rede regular de ensino o acesso aos recursos tecnológicos e o apoio pedagógico necessários ao seu desenvolvimento educacional". Em entrevista para a Ciranda da Inclusão, Elizabet conta a razão de suas escolhas profissionais e como é realizado o seu trabalho.

Ciranda da Inclusão - Qual é sua formação? Por que escolheu a profissão?

Elizabet Sá - Tenho formação nas áreas de psicologia, filosofia e educação. Estas escolhas deram-se em um contexto de afinidades e idealismos, quando ainda não tinha experiência e maturidade suficientes para definir os rumos de minha vida profissional. Logo descobri que a trajetória acadêmica era menos espinhosa do que a inserção profissional, pois tive que travar verdadeiras batalhas para realizar concursos públicos e ser admitida. Finalmente, ingressei na prefeitura de Belo Horizonte onde estou até hoje.

CI - Você é gerente de coordenação do CAP/BH. Conte um pouco mais sobre seu trabalho.

ES - Trabalho na Prefeitura de Belo Horizonte desde 1989, quando fui aprovada em concurso público para o magistério, e estou na gerência de coordenação do CAP/BH desde a sua criação em 2003. Este trabalho está relacionado com a produção braille, geração de livro acessível, confecção de material pedagógico, ampliação de textos, atividades de formação, dentre outras ações que visam a inclusão escolar de alunos cegos e com baixa visão. Além disso, colaboramos com outros órgãos da Prefeitura que buscam orientação e assessoramento para o desenvolvimento de ações e projetos ou a produção de material acessível, tendo em vista o atendimento às necessidades de profissionais ou usuários cegos e com baixa visão no âmbito da administração municipal.

CI - Como é realizado o trabalho de formação de educadores?

ES - No caso do CAP/BH, essa formação consiste em um suporte aos professores que atuam nas Salas de Atendimento Educacional Especializado (AEE) da rede municipal de ensino. Este trabalho é realizado com grupos de professores por meio de cursos, oficinas, palestras e outras atividades voltadas para a formação de competência, tendo em vista o atendimento educacional especializado de alunos cegos e com baixa visão. Colaboramos também com a formação acadêmica de estudantes da graduação e pós-graduação que realizam estágios, visitas técnicas, entrevistas e outras atividades, junto ao CAP/BH, para o desenvolvimento de projetos e pesquisas em diferentes áreas do conhecimento.

CI - Há alguma história marcante no seu trabalho que gostaria de contar?

ES - Meu trabalho é bastante dinâmico e com várias histórias marcantes porque a minha presença e independência costumam causar certo impacto entre os professores que não estão habituados a trabalhar com uma pessoa que não enxerga. Essa é uma experiência educativa que contribui para a ruptura de estereótipos e concepções errôneas acerca da perda total de visão. Pude constatar essa realidade também na África, onde estive duas vezes em missão de trabalho. Em Luanda, ministrei um curso para 60 professores de 18 províncias de Angola. Realizei também outra "aventura pedagógica", quando saí de Belo Horizonte para Manaus, de onde viajei 13 horas de barco para ministrar um curso no município de Tefé.

CI - Há alguma metodologia que você recomende para o ensino de crianças com baixa visão?

ES - Mais importante do que definir uma metodologia de ensino é viabilizar os recursos pedagógicos e de acessibilidade, considerando-se a condição visual dessas crianças. Os alunos com baixa visão devem aprender a perceber visualmente as coisas, as pessoas e os estímulos do ambiente. Alunos que possuem o mesmo diagnóstico, com campo e acuidade visual equivalentes, podem apresentar um desempenho visual bastante diferenciado durante a realização das tarefas escolares. Isso porque o uso eficiente da visão é uma habilidade que deve ser aprendida e desenvolvida. Este trabalho baseia-se na utilização plena do potencial de visão e dos sentidos remanescentes, bem como na superação de dificuldades e conflitos emocionais. Os professores devem conhecer a complexidade da baixa visão, os recursos ópticos e não ópticos, tendo em vista possibilitar o comportamento exploratório por meio de atividades orientadas e organizadas a partir de critérios que contemplem as necessidades individuais e específicas desses alunos. Para isso, torna-se necessário conhecer cada aluno, identificar suas potencialidades e necessidades, as peculiaridades do contexto escolar e familiar.

Ciranda da Inclusão – A revista do Educador. Ano 2 – 19. Julho de 2011. p. 28-29

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